Com a volta da música aos currículos de educação básica, através da obrigatoriedade do ensino de arte nas escolas, surge também a necessidade de se rever sua prática. Na edição passada, discutimos o sentido do termo musicalização e a necessidade de se fazer um diagnóstico em educação musical, justamente para se ter um panorama da escola em que se pretende atuar. É o contexto em que se atua que determina a ação. Feito o diagnóstico, parte-se para o planejamento, que é a base para a criação das aulas e objetiva o desenvolvimento de um trabalho eficiente a partir da realidade de cada escola.
O planejamento é uma projeção daquilo que se quer, do que se pretende com relação ao ensino e de como poderá ser realizado em sala de aula, e embora seja uma orientação da ação, não pode ser determinado previamente com todos os detalhes, por se tratar de uma atividade complexa que envolve várias pessoas e o contexto do momento em que ocorre a prática. É um processo dinâmico, que pode e deve ser mudado e transformado conforme a necessidade, buscando-se equilíbrio entre meios (estratégias) e fins (objetivos), levando-se sempre em consideração o objetivo maior do ensino que é a aprendizagem. Planejamento é a elaboração, por etapas, de planos e programas com objetivos definidos.
O planejamento do ensino ocorre nas várias estâncias a seguir:
·Os Conselhos de Educação determinam as diretrizes para a organização curricular de um país, estado ou município, e dizem respeito ao planejamento no âmbito político. Nesse âmbito, temos como exemplo, os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), criados a partir da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, sancionada em 20 de dezembro de 1996. É a partir da Lei n.9.394/96 que o ensino da arte torna-se obrigatório na educação básica, tendo como característica a sua inclusão na estrutura curricular como área, com conteúdos próprios da cultura artística, portanto, um tipo particular de conhecimento e não apenas uma atividade. Os Parâmetros Curriculares não são compulsórios e foram criados para servirem de referência e orientação para a elaboração de projetos educativos, planejamentos de aulas, reflexão sobre a prática educativa e discussões pedagógicas nas escolas.
·No âmbito da escola, o planejamento determina os objetivos educacionais, os conteúdos, métodos, recursos e critérios de avaliação. A Unidade Escolar elabora o currículo pleno, atendendo às necessidades do estabelecimento e da comunidade escolar.
·No âmbito do professor, a principal função do planejamento, é decidir e avaliar sobre os objetivos a serem alcançados ao final de cada ano letivo. O professor prepara o planejamento do curso ou disciplina, delimitando o que será desenvolvido em sala de aula.
O esquema básico de um planejamento de ensino envolve:
·Objetivo geral - determinado em função do contexto social e cultural em que se encontra inserida a escola em questão, o que se pretende mudar, que pessoa queremos formar;
·Objetivos específicos são as ações propostas em função da proposta pedagógica da escola, a partir do objetivo geral, isto é, o que se pretende ensinar, desenvolver, melhorar, estimular, incentivar, compartilhar;
·Metas é a quantificação dos objetivos, o que se quer atingir, implantar, realizar, podendo-se determinar local e prazo para o seu cumprimento;
·Conteúdo é o conjunto de conhecimentos, habilidades, hábitos e atitudes, construídos e acumulados historicamente e socialmente;
·Metodologia é o procedimento, a direção do processo de ensino, o como fazer para se atingir os objetivos propostos;
·Estratégias ou ações são as atividades a serem realizadas para que os objetivos e metas sejam alcançados, diz respeito ao o que fazer, determinado pela metodologia adotada;
·Avaliação inicia-se com o diagnóstico (avaliação inicial), é o acompanhamento feito para saber se as metas e objetivos estão sendo atingidos, isto é, acompanhamento do processo, no sentido de detectar a modificação e melhora contínua (avaliação reguladora), e os procedimentos que demonstram os resultados obtidos e conhecimentos adquiridos (avaliação final).
Exemplo de Planejamento em Música (resumido):
·Objetivos: desenvolver um olhar crítico da música veiculada atualmente pela mídia (rádio e televisão);
·Objetivos específicos: sensibilizar musicalmente os alunos através da apreciação de diversos estilos musicais, conhecer diversos estilos e períodos ao longo da história, contextualizando a escuta, através de pesquisa, vivência e manipulação dos sons;
·Conteúdo: história da música e formação cultural, acústica musical, propriedades do som, estilo e forma musical;
·Estratégias: pesquisa, filmes e desenhos animados, rádio-escola, danças, improvisações, sonorizações, jogos cantados, experiências sonoras diversas;
·Avaliação: questionários, entrevistas, produção sonora, registro gráfico das atividades, discussões em grupo e painéis coletivos.
No âmbito da educação musical, ao realizar um planejamento, o professor de música deve considerar:
·A sua concepção do que é música e conhecimento musical, como se dá a aprendizagem musical e quais as funções da música na educação (Del Ben, 2003);
·Os elementos presentes na música, as formas de vivenciar a música, como se aprende música, o que se pretende e por que ensinar música nas escolas (Hentschke e Del Ben, 2003);
·Os conteúdos articulados em três eixos norteadores: a produção (o fazer artístico), a fruição (a apreciação significativa de arte e do universo a ela relacionado) e a reflexão (PCN Arte, 2000).
De acordo com JOLY (in Hentschke e Del Ben, 2003), ... o professor deve ser capaz de observar as necessidades de seus alunos e identificar, dentro de uma programação de atividades musicais, aquelas que realmente poderão suprir as necessidades de formação desses alunos.
Nesse sentido, podemos definir o termo musicalização, como processo de desenvolvimento da capacidade de sentir, perceber, expressar, criar, pensar e transformar através da música. Hoje, existe pelo menos um consenso em relação ao objetivo da educação musical, de que a educação musical não visa somente à formação do músico compositor ou intérprete, mas é fundamental na formação de cidadãos, participantes ativos também como ouvintes e apreciadores sensíveis e críticos de música.
Finalmente, é importante que o professor tenha clareza de seus objetivos, para que possa traçar metas possíveis, utilizando metodologias coerentes com as suas concepções de ensino e/ ou da escola onde atua, para que possa organizar e lançar mão das estratégias necessárias para se alcançar os objetivos e metas propostos, lembrando de avaliar o processo continuamente, revendo e alterando o planejamento quando necessário.
Na próxima edição, abordaremos estratégias e planos de aula em educação musical.
Referências Bibliográficas
HENTSCHKE, L.; SOUZA, J. (Orgs.) Avaliação em música: reflexões e práticas. São Paulo: Moderna, 2003.
HENTSCHKE, L.; DEL BEN, L. (Orgs.) Ensino de música :propostas para pensar e agir em sala de aula. São Paulo: Moderna, 2003.
PCN. Parâmetros Curriculares Nacionais: arte vol. 6. Brasília: Ministério da Educação, 2000.
(Artigo publicado na Revista Cenário Musical n.3 - Ed. HMP)