(texto publicado na apostila Musicalização infantil para crianças de 2 a 6 anos - São Paulo, 1998. Autora: Leila Sugahara)
O piano é um instrumento musical onde cada nota está "pronta",e os intervalos podem ser visualizados em suas teclas. Além disso, é um instrumento ao mesmo tempo melódico e harmônico. A flauta doce, apesar de seu "simples" manuseio, é um instrumento que exige o controle do sopro e o desenvolvimento da coordenação motora fina, para se obter um som afinado e um ritmo preciso. No caso do violão e do violino é necessário "construir" as notas apertando ou friccionando as cordas. Todos esses fatores contribuem para que os instrumentos de teclado sejam os mais indicados para se iniciar um trabalho de musicalização através de um instrumento musical, a partir de três anos de idade. Isso não quer dizer que não devemos apresentar o maior número possível de instrumentos musicais diferentes (com seus diferentes timbres, inclusive os de percussão) desde muito cedo, pois todas as informações são enriquecedoras e muito importantes nesse período, servindo como estímulo e como base para um trabalho posterior.
O primeiro passo é a exploração dos sons do piano, através de histórias e brincadeiras rítmicas, na qual a criança tenha a oportunidade de conhecer todas as regiões do teclado (grave, médio e agudo). Como por exemplo, no método de "Elvira Drummond (Caderno preparatório)", em que se brinca de tocar o ritmo do próprio nome da criança, em várias regiões com a mão fechada (posição de cacho ou "cluster"), com movimentos simultâneos das mãos direita e esquerda, alternados, com percussão na tampa do piano, palmas e pés (para o desenvolvimento da coordenação motora), ou o "passeio" com a palma da mão e o braço bem relaxado, por todo o teclado, preparando para uma posterior técnica pianística perfeita.
Uma brincadeira que costumo fazer é contar a história de um lobo ou leão (na região grave), e de um passarinho que canta na árvore (na região aguda), passando por um "glissando" na corrida, ou "staccatos"(saltos) dos sapos, com a participação da criança, que toca junto, acrescentando elementos ou "dialogando" através de sons no piano. Nessa fase trabalham-se principalmente as propriedades do som : altura (grave/agudo), intensidade (forte/fraco), duração (curto/longo) e timbre (que pode ser trabalhado no teclado eletrônico), além da noção de pulsação e andamento. A fase seguinte é a de familiarização e compreensão da disposição das teclas brancas, tocando-se a princípio somente nas teclas pretas, num sistema que favorece o desenvolvimento não só dos dedos e sim de todo o sistema locomotor dos membros superiores. Assim a criança aprende a "ver" os grupos de duas e três teclas pretas, a localizar as notas nas teclas brancas tanto auditivamente, quanto digitalmente.
Quando começar? Quando a criança demonstrar interesse pelo instrumento. A partir de um ano de idade, deixar que explore livremente. Aproveite para contar estórias, tocando melodias simples, tocando clusters (cachos), fazendo ritmos, ostinatos, glissandos, como já havia descrito anteriormente. Conjuntamente com esse trabalho, e principalmente, cante muito. A formação de repertório, a ampliação e fixação dos elementos que compõem o universo sonoro, são fundamentais no aprendizado de um instrumento musical. Pois é a partir de canções conhecidas, que a criança passa a reproduzi-las de memória, por ouvido. Alguns métodos europeus e os métodos húngaros utilizam canções pentatônicas para se iniciar o aprendizado pelas teclas pretas, facilitando a sua familiarização com o teclado. Exigir nessa fase, um som bonito (tonalização), que equivale à vocalização no canto, onde se exercita a intensidade do toque, o ouvido, a memória, a coordenação motora, mantendo a criança sempre motivada, fazendo aulas de acordo com a necessidade e capacidade de concentração de cada criança, podendo algumas vezes durar apenas cinco minutos, e em outras, meia hora. O importante é manter a regularidade das aulas, e estar sempre atento às necessidades do momento.