EDUCADORES

 

CONSIDERAÇÕES SOBRE PENSAMENTO DE VYGOTSKY 

Por Maria Cristina Scavazza

 

            Mais de oitenta anos passados desde a primeira publicação de seus estudos e o instigante pensamento de Vygotsky chega até nós, repleto de vigor e atualidade. Inicialmente escreveu sobre a arte e suas manifestações culturais para posteriormente enveredar por aspectos da influência social no desenvolvimento humano compondo uma consistente obra que alteraria os rumos da Pedagogia da segunda metade do século XX. Em sua visão prospectiva do desenvolvimento humano, a aprendizagem seria propulsora do desenvolvimento, antecipando e promovendo avanços, fato explicitado em um dos conceitos mais difundidos de sua análise teórica, a Zona de Desenvolvimento Proximal. Sua preocupação com a influência social no desenvolvimento humano foi marcante. Professa que desde o nosso nascimento somos socialmente dependentes dos outros em um processo histórico cultural.

            Vygotsky define cultura como: “é simultaneamente, o produto da vida social e da atividade social dos homens, portanto cultura é produção humana e tem como fonte a vida e a atividade do próprio homem. A cultura é obra humana e portanto  relacionada com a vida e história do homem.”

            Analisa a atividade mental superior, que nos distingue dos animais, como sendo a possibilidade do homem pensar em objetos ausentes, imaginar fatos não acontecidos, planejar ações futuras entre outras possibilidades. O que habilita o homem a essa condição é a sua capacidade de simbolizar, de representar mentalmente e de utilizar a linguagem para comunicação e para apoiar o pensamento. Na linguagem, os significados das palavras operam uma estreita relação entre pensamento e fala. Esses significados são internalizados tornando-se ferramentas que operam o pensamento, constituindo representações mentais que substituem objetos do mundo real e são os principais mediadores na relação do homem com o mundo. Se no plano mental podemos nos antecipar aos fatos, podemos imaginar eventos nunca antes ocorridos, projetar-nos no futuro, transformando a realidade; a essa forma de atividade do cérebro humano, Vygotsky se refere como imaginação ou fantasia. E é justamente a imaginação, a base da atividade criadora.

            A obra de arte constitui uma produção que não se refere apenas ao autor criador uma vez que lhe serão atribuídos diferentes significados e sentidos elaborados pelos indivíduos na apropriação da obra. O ato de apropriar-se da realização de outrem promove novas elaborações e representações, resultando em enriquecimento, desenvolvimento e ampliação do repertório pessoal e da coletividade.  Vygotsky salienta que não podemos examinar a criação como dissociada dos elementos da cultura uma vez que a imaginação ou fantasia nutre-se de elementos tomados da cultura e da experiência pessoal.

            Dessa forma, Vygosky conclui enfatizando que quanto mais rica for a experiência humana, tanto maior será o material colocado à disposição da imaginação. E dessa premissa podemos retirar uma implicação educacional fundamental: para desenvolver a capacidade criadora na criança devemos ampliar sua experiência cultural.

            E do mesmo modo que a imaginação apóia-se na experiência, a experiência também pode ser construída a partir da mobilização da imaginação do indivíduo. Em relação a esse aspecto, afirma Vygostsky:Isto significa que tudo o que edifica a fantasia influi reciprocamente em nossos sentimentos, e ainda que essa construção em si não concorde com a realidade, todos os sentimentos que ela provoca são reais e efetivamente vividos pelo ser humano que os experimenta”

            Dessa maneira, considera a arte como um tópico fundamental a ser pensado no planejamento das intervenções pedagógicas com o objetivo de promover o exercício da atividade criadora e para tal finalidade deve-se criar um ambiente educativo que estimule e respeite a livre expressão de criatividade da criança; “qualquer esforço no sentido de retocar ou corrigir o desenho da criança representa apenas uma grosseira intromissão na ordem psicológica da sua vivência e aventura, constituindo-se um impedimento à sua experiência”.

Histórico

1896 Lev Semenovich Vygotsky nasce em 17 de novembro, na cidade de Orsha, em Bielarus na Rússia Seus pais gozavam de favorável situação financeira tendo Vygotsky recebido boa instrução, inicialmente com preceptores particulares para ingressar em 1911 em uma instituição escolar

1915 Ingressa na Universidade de Moscou, no curso de Direito e Filosofia.

1920 Toma conhecimento que está tuberculoso.

1924  Faz uma conferência no II Congresso de Psiconeurologia de Leningrado

1925  Escreve o livro Psicologia da Arte.

1929 Começa a organizar o Laboratório de Psicologia para crianças deficientes, no Instituto de Estudo de Deficiências

1925-1939 São publicados sete artigos diversos

1934  Publicação do livro Pensamento e Linguagem. Morre de tuberculose em 11 de junho, aos 37 anos.

1987 Publicação de Pensamento e Linguagem no Brasil

           

Recomendação de leitura:

Vygotsky, L. S. A Formação Social da Mente. São Paulo: Martins Fontes, 1999

Vygotsky, L. S. Pensamento e Linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 1999

Vygotsky, L. S. Psicologia da arte. São Paulo: Martins Fontes, 1998

 

Maria Cristina Scavazza

Mestre em Educação-Psicologia da Educação pela PUC/SP

Especialista em Psicopedagogia pelo Instituto Sedes Sapientiae                        

E-mail: mcscavazza@uol.com.br

 

 
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