ENSAIO

Por Leila Sugahara

 

 

Filme quase mudo: cenas do cotidiano

 

            Andando pela avenida mais movimentada de São Paulo. Carros, ônibus, táxis, pessoas engravatadas com suas mochilas (mochilas?), nas costas (ah, são os notebooks) e invariavelmente, com seus fones de ouvidos. Seja na fila do banco ou no cartório: boys, secretárias, estudantes e executivos, todos equipados com sua música particular. Só eu não tenho um MP3 (será que estou fora de moda?). Continuo observando, e pela visionomia das pessoas ou pelo volume às vezes tão alto do aparelhinho, é quase possível identificar que tipo de música estão escutando. Quando não, alguém cantarolando frases sem sentido, entremeadas por articulações bucais semelhantes às que podem ser observadas dentro dos carros, nos quais os indivíduos, com seus fones de celular, parecem falar sozinhos. Cenas bizarras da pós-modernidade.

            Música deveria ser sinônimo de interação. Será que podemos compartilhar sentimentos por meio da tecnologia? Tudo bem que tem telefone celular, Internet, MSN, webcam, bluetooth, criative commons, MP3, MP4, etc, etc... Os programas de edição musical que permitem que todos virem “músicos!?” (não é erro de edição, é espanto ou indignação mesmo! Ou será preconceito meu?). A música que outrora unia pessoas em torno de um fazer musical interativo, hoje é acessada de todas as maneiras, mas tornou-se atividade individual. É o paradoxo da pós-modernidade: acessibilidade globalizada, mas uma democracia virtual, isto é, aparente. É o ser humano se afastando de sua própria humanidade, afinal, o homem é um ser social, ou deveria ser.

            A música sempre uniu pessoas, mas agora a aldeia global nos torna cada vez mais solitários. Talvez essa necessidade de isolamento seja uma tentativa desesperada de se contrapor à rapidez e a fugacidade com que as informações são despejadas diariamente. Acho que passamos da fase do stress para o anestesiamento total dos sentidos. O stress é um estado de alerta, uma adrenalina necessária ao perigo iminente. O coração dispara, todos os sentidos ficam despertos. Estado semelhante à escuta atenta de grandes obras musicais? Que depois, traz a sensação de alívio, de prazer?

            Conversar por MSN pode ser eficiente, mas não substitui o abraço, o estar junto. Às vezes, nem precisamos falar nada. Basta estar junto. Não é o silêncio absoluto, o vazio. É o silêncio preenchido por algo que só a música feita pelo homem é capaz de traduzir. Nem palavras, nem ações. É o transcender que nos torna cada vez mais humanos.

            Para educar o outro, é necessário começar por si mesmo. Tirar os fones de ouvidos, que nos ensurdece e emudece. Educar a vontade, exercitar a escolha, tirar a democracia do plano virtual e dar voz a todos que querem falar, compartilhar idéias e sentimentos. E a música é uma linguagem democrática, acessível e sensível. Têm coisa melhor que fazer música com os amigos? Dane-se se estou fora de moda. Afinal, moda é outro departamento.

           

 

 
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