ENSAIO

Por Leila Sugahara

 

 

MÚSICA PORTÁTIL

 

Nunca se viu em toda a história da humanidade tamanho fenômeno, o da música portátil, portável, compartilhável, onde quer que estejamos. É música pelo celular, Internet e a cada dia surgem novas mídias para disseminar música produzida pela própria mídia. Afinal, se hoje a música é tão acessível, porque tantos clamam por música de boa qualidade? O que leva algumas pessoas a afirmarem que a música veiculada pelos meios de comunicação, principalmente o rádio e a televisão, não condiz com o espírito da boa música, aquela que nos eleva a alma, e nos inspira os belos sentimentos e induzem ao amor? A música sempre refletiu os valores vigentes ou se opôs a eles ao longo da história. Todos os dias, milhares de crianças e adolescentes anseiam por novidades e trocam seus arquivos de MP3 e consomem produtos de seus ídolos musicais, no mesmo ritmo em que fazem os downloads e seus pais desesperados trabalham para suprir todos os seus desejos. Desejos que passam tão rápido quanto a sensação de felicidade que provocam. Entender o fenômeno da música em nosso século é compreender os rumos que tomam o destino da humanidade. A base de uma educação sólida é aquela que permanece e é baseada no amor, nos valores humanitários, pois disso depende a sobrevivência da própria humanidade. E que a música tem o poder de provocar os mais intensos sentimentos, disso ninguém duvida. O que isso tem a ver com educação? Se não educarmos os sentidos, e a música se revela como recurso imprescindível, que tipo de sociedade teremos quando essas crianças crescerem?

O que se revela assustador, é que hoje a música ao invés de reunir pessoas em rituais de amizade e alegria, está matando. Sim, matando. Outro dia, assistindo justamente televisão, ou seria acessando a Internet, seja como for, um grupo ou banda como se autodenominam, provocaram tamanho alvoroço e tumulto durante sessão de autógrafos, que crianças morreram pisoteadas, tudo para verem seus ídolos. Logicamente sabemos que os jovens integrantes da banda não são mais do que apenas marionetes desse perverso mercado midiático. Crianças que reproduzem tudo o que vêem na televisão, já que não se pode mais distinguir o real da fantasia, e o pior, o mundo real e o virtual confundem-se a ponto de sermos todos atores do mesmo show. Estamos perdendo a identidade. Crianças de uma cidade considerada o berço do samba paulista, não conhecem essa tão rica manifestação cultural e reproduzem com uma exatidão assustadora, a dança da banda Calipso. De qualquer modo, é a música ditando comportamentos, atitudes e valores. O que é música mesmo? Cada qual que busque um significado para seu fazer musical, mas a educação tem em seu papel, formar pessoas, e formar pessoas na música implica em trazer à tona os sentimentos e valores humanos através de um fazer musical responsável e isso diz respeito a todos, aos que produzem e aos que consomem música. Cabe à escola criar um espaço de verdadeira reflexão e produção de novos valores, tão necessário na formação de uma nova sociedade do século XXI, deixando de lado as reproduções e representações toscas do que se vê e do que se ouve. De acordo com a concepção vygotskiana de desenvolvimento e aprendizagem, da mesma maneira que imaginação se constrói a partir da experiência, a experiência pode ser construída a partir da imaginação, já que mesmo sendo fantasia, provoca sentimentos reais que são efetivamente vividos por quem os experimenta. E a educação musical tem muito a contribuir para que esse sonho se torne real e resgatar à condição humana, um fazer exclusivamente intencional e verdadeiramente humano: Música.

 

 

 
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