Pesquiso e trabalho com educação musical para pessoa com deficiências há alguns anos e dentro dessa abordagem, trabalho também com a deficiência auditiva e/ou surdez. Existe um preconceito muito grande em relação a música para surdos. Muitos acham que, se há algum valor um surdo entrar em contato com música, este se deve somente ao fato de colaborar na oralização dos mesmos. Isso não é verdade, se dermos oportunidade para pessoas surdas aprenderem música, elas se interessam e muito.
Música é som? também...e som é vibração. Música é movimento?...também...e movimento é vida, é intenção, é expressão. Logo, o surdo não pode “ouvir” o que está acontecendo, mas pode sentir através da vibração e compreender através do movimento as intenções musicais.
A primeira grande dificuldade numa aula de música para surdos é a comunicação. Por isso, um professor de música, a meu ver, precisa saber LIBRAS minimamente para poder passar o conteúdo de sua aula. A segunda dificuldade é que certas expressões musicais tais como “tocar no tempo”, valor das figuras musicais, etc, são muito difíceis de serem expressas em LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais) pois o vocabulário se difere MUITO do português.
Musicalmente falando, o primeiro grande desafio é fazer o surdo se concentrar e compreender a importância de se manter uma pulsação. Então, sempre começo com exercícios de concentração e pulsação. Num segundo momento introduzo a leitura rítmica musical, pois o fato de aprender a ler as figuras colabora em muito com a organização neurológica dos alunos e facilita a compreensão musical. Paralelo a esse trabalho, faço vários exercícios psicomotores e alguns para ampliar a sensibilidade tátil e “percepção” do som através das vibrações.
Questões importantes a serem consideradas na hora da aula de música é o quanto os alunos possuem ou não de resíduo auditivo e como utilizar os instrumentos musicais para maximizar a aprendizagem do aluno. Há aqueles que percebem melhor os instrumentos graves, outros preferem os agudos, pois os graves “machucam” o ouvido. Muitos alunos apesar de serem surdos possuem hipersensibilidade auditiva e isso quer dizer que são hiper sensíveis a determinados sons. O professor precisa estar atento a isso, pois expor um aluno desses a muito som pode fazer com que ele perca o pouco que possui de resíduo auditivo.
Outra questão importante é quanto ao aparelho auditivo. Muitos acreditam que se o aluno usar aparelho está tudo resolvido. Muito pelo contrário, em minhas aulas de música geralmente os alunos que utilizamaparelho os tiram na hora da aula, pois a função do aparelho é ampliar a “sensação” auditiva do som ao redor e não fazer a pessoa ouvir. Sendo assim, na aula de música o aparelho as vezes atrapalha pois confunde a pessoa se houver por exemplo, vários instrumentos sendo tocados ao mesmo tempo.
Enfim, a aprendizagem musical por parte do surdo também precisa ser discutida no universo pedagógico musical. Esse é um campo ainda pouco explorado no Brasil. O que não podemos esquecer é que se música é importante para TODOS então é importante também para os surdos.